
Ex-eletricista
superou todas as barreiras
Flávio perdeu os dois braços em acidente ocorrido em 97; hoje
ele se dedica a ensinar os trabalhadores a reduzi riscos
Glória Galembeck
gloria@jornaldelondrina.com.br
Acidentes acontecem. E
um, muito grave, aconteceu com Flávio Lúcio Peralta quase dez
anos atrás. Ele era eletricista, virou palestrante. Era solteiro e
vivia com os pais, casou-se e é pai de Vinicius, de 3 anos. Flávio
trabalhava numa empresa que faz troca de transformadores de alta tensão.
No dia 21 de agosto de 1997, acordou um pouco esquisito, estava “meio
para baixo”. Depois do almoço, ele foi fazer um serviço
numa chácara e levou um choque de 13,8 mil volts. A linha de alta tensão,
que deveria estar desligada – conforme foi informado ao eletricista
-, não estava.
A descarga queimou seus dois braços e o pé direito. O pé
se recuperou, mas, os braços, não. Internado na Unidade de Terapia
Intensiva (UTI) da Santa Casa, ele tomava medicamentos muito fortes para dor,
à base de morfina, e não tinha condição de tomar
decisões. Coube aos pais autorizar a equipe médica a amputar
os dois braços. Flávio tinha 29 anos – hoje, está
com 38. Ele usa uma prótese no braço esquerdo. Chegou a adquirir
uma prótese de U$ 15 mil para o braço direito, amputado acima
do cotovelo, mas não se adaptou.
Ele não procura culpados, não quis indenização
da empresa e vive da pensão pela aposentadoria por invalidez. Fala
sobre o acontecido com naturalidade, mesmo porque o caminho da volta por cima
é alertar os trabalhadores sobre o risco de acidentes. Nas palestras
que faz em empresas, geralmente durante as semanas internas de prevenção
de acidentes (Sipat), ele relembra como tudo aconteceu.
“Logo depois do acidente a minha preocupação era o que
eu ia fazer da vida, e virei palestrante”, conta. Além de Londrina,
ele já deu palestras em Curitiba, Arapongas, Andirá, São
Paulo, Sorocaba e Campinas. O objetivo é alertar a respeito dos riscos
do ambiente de trabalho e chamar a atenção para a necessidade
de prevenção. Falta de comunicação, pressão
de clientes, falta de preparação e esgotamento físico
são alguns dos temas abordados. “O trabalho que eu fazia era
realmente perigoso. Eu, por exemplo, estava com a ponta da luva furada”,
lembra.
Nas palavras de Jane, suas esposa, Flávio fez “da sua desgraça
algo de bom para o coletivo”. Além das palestras, ele criou o
site Amputados Vencedores (www.amputadosvencedores.com.br), que reúne
informações úteis para amputados, desde garantias legais
até modelos de próteses e relatos pessoais. “O amputado
quer informação, ele quer ver a foto da prótese. Eu não
encontrava nada e resolvi criar o site”, disse. Por mês, 20 mil
internautas visitam a página da internet.
Flávio fica on-line boa parte do dia e, além de informações,
dá apoio a outros amputados. “Conversei com um rapaz de São
Paulo que estava lutando com um joelho, que ele estourou num acidente de moto,
fazia nove anos, tomava morfina. Orientei o rapaz e ele decidiu que ia amputar
a perna. Depois de quase dez anos sofrendo ele colocou uma prótese
e ganhou a liberdade de volta”, conta.
No caso de Flávio, não houve quem o orientasse. “Eu é
que tinha que orientar meus pais. Meu pai não me aceitava e a mãe
só chorava”, lembra. Por meio das palestras e do site, ele sente
que cumpre uma missão de evitar que os outros sofram acidentes e de
ajudar amputados e suas famílias a dar a volta por cima. Flávio
busca parceiros para manter o site
www.amputadosvencedores.com.br).
BOX - Em 1999, dois anos depois de perder os braços, Flávio
Lúcio Peralta conheceu sua esposa. Eles estavam em uma sorveteria,
e tinham um amigo em comum. Ela se sentou à mesa dele e começaram
a conversar. A amizade evoluiu para o namoro, ele começou a ir com
ela à Shalom, igreja evangélica que Jane freqüenta e decidiram
se casar.
Bem humorado, Flávio lembra do dia em que foi conhecer o sogro. “Eu
ainda não tinha a prótese. Imagina a cara com que ele me olhou”,
comenta. Jane Franco Lima, 39 anos, é servidora municipal na Secretaria
Municipal da Mulher. “Não foi aquela paixão, é
uma coisa mais madura, virou amor. Eu sabia das dificuldades, a gente se acostuma
com o que é possível”, afirma Jane.
E ela sabe do que fala. Aos 13 anos, quando morava em Umuarama, sofreu um
acidente de motocicleta ao avançar a preferencial. “É,
eu estava dirigindo moto com 13 anos”, confessa. O acidente resultou
numa lesão num tendão em uma das pernas, e Jane precisa usar
uma órtese para manter o pé na posição correta.
“Todo acidente é solitário. Mesmo que você tenha
a família e os amigos do seu lado, as conseqüências e as
seqüelas são todas suas”.
A residência do casal tem algumas adaptações no banheiro
e na cozinha, que garantem uma certa autonomia. Em 2003, eles resolveram aumentar
a família, e nasceu Vinícius. Até os dois anos de idade,
as coisas eram mais complicadas. Mas a natureza deu uma força. “Com
oito meses, Vinícius andou. Ele subia na escrivaninha e eu abraçava
ele sem a prótese, e conseguia carregá-lo”, conta o pai.
Hoje, é Flávio quem leva Vinícius para a escola. Juntos
eles jogam bola e brincam, como qualquer pai e filho.
http://canais.rpc.com.br/jl/geral/conteudo.phtml?id=657725
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