INCLUSÃO SOCIAL - Respeito precisa ser conquistado
Presidente da Adefil diz que faltam políticas de inclusão, mas também critica atitudes dos deficientes

Olga Leiria

Paulo Lima: ‘‘Não posso me furtar de dizer que se a pessoa quiser vai à luta. A gente vê muito deficiente acomodado’’

O presidente da Associação dos Deficientes Físicos de Londrina (Adefil), Paulo Lima, diz que muitas pessoas não se consideram deficientes e estão perdendo oportunidades de emprego por falta de informação. ''Às vezes encontramos deficientes que têm o ensino médio e estão cuidando de carro na rua. Agora, é mais cômodo ganhar R$ 10 por dia cuidando de carro, sujeitando-se ao tempo e às ofensas, do que procurar a associação e dizer: eu existo, tenho essa formação e preciso de um emprego? Infelizmente, tem gente que gosta de ganhar dinheiro na moleza. Essa acomodação me incomoda.''

Quais as principais dificuldades enfrentadas pelos deficientes no mercado de trabalho?

O principal é a falta de capacitação. Os deficientes que têm capacidade e qualificação estão empregados. A grande maioria não tem um emprego porque não se capacita, não dá tanta importância para formação, aos estudos. Nenhuma empresa, por mais que a lei obrigue, vai ficar fazendo caridade, dando emprego para alguém que não seja produtivo e qualificado.

Existem cursos para que se qualifiquem?

Faltam projetos em órgãos municipais, estaduais, federais e nas próprias empresas. Elas assinaram termo de compromisso na delegacia do trabalho para oferecer cursos, mas acham que o deficiente só vai querer trabalhar na lavanderia, na faxina, funções que muitas vezes não conseguirão exercer. Muitas empresas acham que estão fazendo favor ao dar emprego para deficiente. Há cadeirantes qualificados que não conseguem emprego porque a empresa não quer fazer pequenas adaptações para recebê-los. Falta boa vontade. Também as escolas, apesar do plano de inclusão, têm preconceito.

Mas o deficiente tem esse interesse em se qualificar?

Não posso me furtar de dizer que se a pessoa quiser vai à luta. A gente vê muito deficiente acomodado. Sinto muito, mas eles têm que se fazer valer também, têm que fazer alguma coisa. Agora, ficar apenas dizendo ''não, eu tenho direito''. Direito a quê? Tem deveres também, sua obrigação é se preparar para o mercado.

Alguns especialistas dizem que não há estímulo para que o deficiente vá para o mercado por causa do benefício de um salário mínimo que recebe e perde quando consegue emprego. Essa situação leva à acomodação?

Sem dúvida. Parece que está tramitando no Congresso uma lei para que possa reaver o Benefício de Prestação Continuada (BPC), caso perca o emprego. O BPC teria de ser revisto, analisado com muito carinho, porque você desonera a previdência, coloca mais deficientes no mercado e as pessoas vão ser produtivas, se sentir bem.

Como está o transporte coletivo para os deficientes?

Há 98 ônibus adaptados. Estamos em uma cidade até privilegiada, mas as pessoas com deficiência precisam se mostrar. Os problemas maiores são as poucas linhas e a discriminação. O cadeirante percebe que os outros usuários olham meio torto porque o embarque e desembarque demora. Além disso, o terminal é praticamente inacessível para o cadeirante.

E a acessibilidade na cidade?

Recebemos bastante reclamações em relação às calçadas, mas elas são de responsabilidade do proprietário. Se o poder público fiscalizar mais, com mais multas, notificações, já vai ajudar muito. Às vezes, as pessoas denunciam proprietários que colocam piso de petit-pavê que solta fácil. Calçadas com tabletes de concreto e um vão de 8cm, com grama. Aí não tem como a cadeira de rodas passar. Tem coisas que a gente atribui à ignorância do proprietário por ele não ter nenhum parente que vive o problema. Falta conscientização.

Quantos deficientes há em Londrina?

Segundo estatísticas, 10% da população das cidades têm deficiência. Então, Londrina teria entre 30 mil e 40 mil deficientes. Mas se formos colocar os deficientes de caráter, aí o número aumenta muito mais.

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Célia Polesel
Reportagem Local

http://www.bonde.com.br/folha/folhad.php?id=7104&dt=20070508